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Jovem aprendiz no petshop: como formar banhista antes de precisar

Não existe banhista pronto esperando por você. Existe gente que quer aprender e não tem onde. Enquanto o setor reclama de falta de mão de obra qualificada, a lei brasileira já oferece um mecanismo para formar essa mão de obra dentro da sua própria operação, com custo menor que uma contratação comum. Chama-se aprendizagem profissional, e a maioria dos petshops só descobre que ela existe quando recebe uma notificação.

Em abril deste ano a regra ficou mais séria. Vale entender antes que ela chegue até você.

O que a lei já exige hoje

A aprendizagem profissional é regida pela Lei 10.097/2000 e pelas normas que a regulamentam. A obrigação funciona assim: empresas com 7 ou mais empregados em funções que exigem formação profissional devem manter entre 5% e 15% desse quadro contratado como aprendiz. Microempresas, empresas de pequeno porte e entidades sem fins lucrativos estão isentas da cota, mas podem contratar voluntariamente.

A faixa de idade é de 14 a 24 anos incompletos, com prioridade legal para adolescentes de 14 a 18. Pessoas com deficiência não têm limite de idade. O contrato dura no máximo dois anos, a jornada tem que ser compatível com a frequência ao curso teórico, e o aprendiz tem carteira assinada, 13º, férias e FGTS, este último recolhido a 2% em vez dos 8% do contrato comum. Os detalhes atualizados estão bem consolidados neste guia sobre as regras do jovem aprendiz em 2026.

Repare no critério da cota: 7 empregados em funções que exigem formação profissional. Um petshop de bairro que cresceu, abriu o segundo turno de banho e tosa e chegou a oito ou nove carteiras assinadas provavelmente já está dentro da conta e não sabe.

O que muda com o Estatuto do Aprendiz

Em 22 de abril de 2026 a Câmara dos Deputados aprovou o Estatuto do Aprendiz, substitutivo do PL 6461/19 relatado pela deputada Flávia Morais. O texto seguiu para o Senado e ainda não é lei, mas a direção está clara e o valor em jogo mudou de escala.

A multa atual por descumprimento da cota fica na faixa de R$ 408,25 a R$ 2.041,25 por aprendiz não contratado, com teto de cinco salários mínimos. No texto aprovado pela Câmara, a penalidade passa a R$ 3.000 por aprendiz não contratado por mês, sem teto, dobrável em reincidência, com a alternativa de depositar R$ 1.500 por aprendiz por mês em fundo, por até 12 meses. O objetivo declarado é elevar o número de aprendizes no país de cerca de 800 mil para 1,2 milhão.

Traduzindo para a sua planilha: hoje descumprir a cota é uma multa incômoda. Se o texto passar como está, descumprir vira uma despesa mensal recorrente maior que o salário do aprendiz que você deixou de contratar. A lógica econômica se inverte.

Não é motivo para pânico e nem para correr agora. É motivo para você saber em qual lado da linha está antes que a decisão deixe de ser sua.

A restrição que quase todo petshop ignora

Aqui está o detalhe que separa quem monta um programa que funciona de quem monta um problema.

A Constituição, no artigo 7º, inciso XXXIII, proíbe trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de 18 anos. Isso vale para aprendiz. Não existe exceção porque o contrato é de aprendizagem.

E o banho e tosa tem discussão de insalubridade em cima, como já tratamos em insalubridade no banho e tosa. Se o laudo do seu ambiente aponta agente insalubre, o aprendiz de 14 a 17 anos não pode trabalhar dentro daquela área. Ponto.

Isso não mata o programa. Muda o desenho dele:

E antes que alguém torça o nariz para a primeira lista: recepção não é lugar de encostar ninguém. É onde a retenção do cliente nasce ou morre, como escrevemos em recepção no pet shop. Um adolescente que passa doze meses aprendendo a ler tutor, agendar sem furar a escala e explicar preço sem gaguejar sai dali com um ofício. Aos 18, se quiser migrar para a operação, já conhece a casa inteira.

Como montar um programa que forma alguém de verdade

O contrato de aprendizagem tem duas pernas: a teórica, que roda em entidade formadora qualificada, e a prática, que roda na sua loja. A entidade cuida do curso e da papelada. A parte prática é sua, e é aí que quase todo programa fracassa.

Escreva o plano antes de contratar

Defina, por escrito, o que a pessoa tem que saber fazer sozinha ao fim do mês 1, do mês 3, do mês 6 e do mês 12. Exemplo para recepção:

Sem esse plano, aprendiz vira quem varre o chão e some em quatro meses.

Nomeie quem ensina

Uma pessoa. Com nome. Que tem hora reservada na semana para ensinar e responder. Padrinho sem tempo é padrinho de papel.

Registre o treinamento

Data, tema, quem treinou, quem participou. Serve para a fiscalização e serve para você saber onde a formação parou.

Trate como pipeline, não como favor

O objetivo do programa é ter, em dois anos, alguém que você contrataria de qualquer forma. Se ao fim do contrato você não tem interesse em efetivar, o programa não deu certo, mesmo que a cota esteja em ordem.

A conta que ninguém faz

O custo de um aprendiz é uma fração do custo de um profissional formado, porque a jornada é menor e o FGTS é reduzido. Mas o ganho não está no desconto. Está no que você deixa de gastar do outro lado.

Já detalhamos quanto custa de verdade um banhista na folha e quanto custa uma contratação errada. A contratação errada é o buraco caro: você paga o processo, paga a adaptação, paga o retrabalho e paga a saída. Formar alguém dentro de casa por dois anos, sabendo como a pessoa trabalha, quantas vezes chegou atrasada e como reage a um cão difícil, é a forma mais barata de reduzir esse risco.

Para dimensionar: nossa média para fechar uma contratação em São Paulo é de 17,3 dias, e isso porque trabalhamos com uma base de quase 20 mil profissionais e mais de 600 empresas atendidas. Quem procura sozinho, sem base, leva muito mais e frequentemente aceita o candidato que apareceu, não o que servia.

O erro que transforma programa em passivo

Usar aprendiz para cobrir buraco de escala. É a tentação óbvia: falta gente, tem um jovem custando pouco, empurra para a produção.

Três motivos para não fazer. Primeiro, se ele é menor de 18 e a área é insalubre, você está descumprindo a Constituição, não uma portaria. Segundo, aprendiz sem formação real vai embora, e você volta à estaca zero com dois anos perdidos. Terceiro, o registro de jornada e de atividade existe, e a fiscalização do trabalho sabe ler.

Programa de aprendizagem é investimento em formação com contrapartida legal. Quem trata como desconto na folha paga duas vezes.

O que fazer nesta semana

Conte quantas carteiras assinadas você tem em funções que exigem formação profissional. Se passar de 7, calcule 5% e 15% desse número: essa é a sua faixa de cota. Depois decida se você quer chegar nela por obrigação, com multa em cima, ou por escolha, com plano de formação escrito e alguém responsável por ensinar.

A TPC monta e treina equipe para operação pet. Se você quer transformar cota em pipeline de gente boa em vez de tratar como despesa, fale com a gente no WhatsApp.

Ninguém nasce sabendo secar um cão. Alguém ensinou. A pergunta é se vai ser você.

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