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Responsável técnico no CRMV: quando o petshop precisa de veterinário

A fiscalização do CRMV não avisa que vem. Ela chega, pede o registro do estabelecimento, pede a Anotação de Responsabilidade Técnica e olha a estrutura. Se não achar, lavra o auto de infração e vai embora. A conversa sobre se você precisava mesmo de um médico veterinário responsável começa depois, com a multa já no seu nome.

Esse é o problema. A maior parte dos donos de petshop, creche e hotel descobre a regra no dia da autuação. E a regra não é tão simples quanto o fiscal diz nem tão inexistente quanto o vizinho garante.

O que é a ART e por que ela existe

Responsabilidade técnica é o vínculo formal entre um médico veterinário e um estabelecimento. O documento que registra esse vínculo é a ART, Anotação de Responsabilidade Técnica, hoje regida pela Resolução CFMV nº 1.562/2023, que substituiu a norma antiga de 2001, criou a versão eletrônica (e-ART) e definiu presença mínima do profissional no local.

A lógica da norma é esta: todo estabelecimento que exerce atividade privativa da medicina veterinária, ou que presta serviço a terceiros envolvendo animais, precisa ter alguém tecnicamente responsável por aquilo. Não é o dono. É um profissional com registro no conselho, que responde pelo que acontece dentro daquelas quatro paredes.

As diretrizes de atuação publicadas pelo CFMV colocam na mesma lista pet shops, casas agropecuárias, hotéis, creches, escolas de adestramento e estabelecimentos de banho, tosa e estética. Ou seja: pela leitura do conselho, quase toda operação pet de bairro está dentro.

O contraponto que quase ninguém do setor conhece

Existe decisão judicial dizendo o contrário para o caso mais comum de todos.

Em novembro de 2022, a 4ª Vara Federal de Florianópolis concedeu liminar impedindo o CRMV de multar um petshop por falta de inscrição no conselho e de responsável técnico. O entendimento: a prestação de serviços de higiene e embelezamento de animais não sujeita o estabelecimento ao registro no CRMV. A multa em discussão era de R$ 3.000. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região registrou o caso (processo 5031919-32.2022.4.04.7200/SC) e apontou jurisprudência consolidada na mesma direção: banho e tosa não se confunde com atividade privativa da medicina veterinária.

Antes de comemorar, entenda o tamanho disso. É uma decisão de tribunal regional, que cobre três estados do Sul, obtida por quem entrou na Justiça. Não é lei nacional, não é súmula, e não impede o CRMV de autuar você amanhã. Significa apenas que, se a sua operação for exclusivamente banho e tosa e você for autuado, existe um caminho jurídico com histórico de vitória. Um caminho que custa advogado e tempo.

A linha que decide de verdade

A pergunta certa não é "sou petshop?". É "o que eu faço aqui dentro?". A resposta muda tudo.

Onde a discussão não existe

Se a sua operação inclui qualquer um destes itens, responsável técnico não é debate:

O último item pega muita creche e muito hotel. Hospedar um cão diabético e aplicar insulina porque o tutor deixou a caneta na mochila é manejo sanitário de animal sob sua guarda. É exatamente o tipo de situação que a norma quer ver assinada por alguém.

Onde a discussão existe

Banho, tosa, escovação, corte de unha, hidratação e estética, sem venda de medicamento e sem atendimento clínico. Aqui a leitura do conselho e a leitura de parte do Judiciário divergem. Se é o seu caso, você tem uma escolha real a fazer, e ela é de negócio, não de moral.

Onde a maioria acha que está e não está

O caso mais comum: a loja que "só faz banho e tosa" mas tem uma prateleira com antipulgas, aplica vermífugo quando o tutor pede e recebe hóspede no fim de semana. Essa loja não está na zona de discussão. Está na zona onde a autuação se sustenta.

Quanto custa e o que você recebe pelo dinheiro

Aqui vem a parte que muda a decisão. RT não é uma taxa. É um contrato de trabalho técnico com carga definida.

O guia de responsabilidade técnica do mercado pet do CRMV-RS estabelece parâmetros que valem como referência de mercado: contrato de no mínimo 6 horas semanais por estabelecimento, teto de 56 horas semanais somando todos os contratos do profissional, e atuação preferencialmente no município onde ele reside, no máximo num raio de 120 km. Traduzido: um veterinário não pode assinar trinta lojas. E se ele assinou a sua com a promessa de nunca aparecer, o contrato é frágil dos dois lados.

O que um RT que trabalha de verdade entrega, e isso está nas atribuições descritas no Manual de Banho e Tosa do CRMV-PR:

Leia essa lista de novo pensando na sua operação. Treinamento registrado, protocolo escrito, critério de recusa. Isso não é papel para o fiscal. É o que segura você quando um cão passa mal na secagem, quando dois cães se estranham no parquinho ou quando a tosse pega metade da hospedagem. Já escrevemos o protocolo dessas duas últimas situações em prevenção de brigas na creche e em tosse dos canis, e nos dois casos a defesa do negócio é a mesma: registro do que foi feito.

O RT de carimbo, aquele que cobra pouco e nunca pisa na loja, custa o dobro no dia do problema. Você paga a mensalidade e continua sem nada escrito.

Como decidir esta semana

Quatro perguntas, respondidas com honestidade:

  1. Existe medicamento na sua loja? Prateleira, gaveta, geladeira. Se sim, contrate RT.
  2. Você hospeda, interna ou aplica medicação em animal sob sua guarda? Se sim, contrate RT.
  3. Você vende ou doa animais? Se sim, contrate RT.
  4. Nenhuma das anteriores? Aí é decisão de risco. Você pode operar sem RT sabendo que existe chance de autuação e existe defesa possível, ou pode contratar as 6 horas semanais e comprar tranquilidade mais o pacote técnico que vem com elas.

Se a resposta for contratar, não contrate assinatura. Contrate escopo. Coloque no contrato quantas visitas mensais, quais documentos o profissional entrega, quantas horas de treinamento da equipe por trimestre e em quanto tempo ele responde a uma emergência. RT sem escopo é despesa. RT com escopo é infraestrutura.

E confira uma coisa antes de assinar: o registro do profissional está ativo no CRMV do seu estado, e ele tem folga na carga de 56 horas. Um RT com a agenda estourada é uma ART que não se homologa.

O que sobra depois de resolver o papel

Regularizar a ART resolve a autuação. Não resolve a operação.

O fiscal olha o documento. O tutor olha o cão que voltou para casa. O que faz a diferença entre um estabelecimento seguro e um estabelecimento sortudo não é a assinatura do veterinário na parede, é a equipe saber o que fazer quando o cão chega assustado, quando a pele está diferente, quando o idoso cansa rápido na secagem. Isso se chama treinamento, e é a única parte da conformidade que ninguém pode terceirizar por 6 horas semanais.

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Papel na parede não segura cão. Gente treinada segura.

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