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Capa do artigo: Dor no ombro e no punho: o que o banho e tosa cobra do corpo
Profissional Pet

Dor no ombro e no punho: o que o banho e tosa cobra do corpo

Você termina o dia com o ombro pesado. À noite o punho lateja. De manhã passa, e você esquece.

Seis meses depois não passa mais de manhã. Um ano depois você está segurando a máquina com a mão errada pra compensar. Dois anos depois você está fora da profissão, e não porque quis sair.

Isso tem nome. Chama-se LER/DORT, e no banho e tosa ele não é azar: é o desfecho previsível de uma rotina que ninguém te ensinou a organizar.

O que é LER/DORT

LER significa Lesões por Esforços Repetitivos. DORT significa Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho. Na prática, é o corpo cobrando a conta de fazer o mesmo movimento milhares de vezes sem recuperação suficiente.

Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, os distúrbios ocupacionais mais frequentes são as tendinites, especialmente de ombro, cotovelo e punho, as lombalgias e as mialgias.

Ombro, cotovelo, punho e lombar. Leia essa lista e olhe pro seu dia de trabalho. É exatamente o mapa do que você usa pra tosar.

O Ministério da Saúde trata LER/DORT como agravo relacionado ao trabalho, com notificação e protocolo próprios. Não é frescura, não é "cada um tem seu limite". É doença ocupacional reconhecida.

Por que o banho e tosa é território fértil

Junte os elementos da sua rotina:

Braço acima da linha do ombro. Secador na mão, cão na mesa, braço levantado por 15, 20 minutos seguidos. O ombro não foi feito pra sustentar carga nessa posição por tempo prolongado.

Punho em movimento fino e repetido. Tesoura. Máquina. Escova. O mesmo gesto, milhares de vezes por dia, com resistência.

Postura inclinada. Mesa baixa, você curvado pra alcançar a barriga, a pata, a orelha. Como aponta o DDS Online, a rotina do tosador envolve posturas prolongadas e movimentos repetitivos, como segurar o animal ou inclinar-se para alcançar diferentes áreas, o que gera dor nas costas, ombros e braços.

Carga inesperada. O cão se mexe, você segura com força, o corpo compensa numa posição ruim. Cinco vezes por dia.

Sem pausa. Agenda cheia, cliente esperando, o próximo cão já no box.

Cada item sozinho seria manejável. Somados, oito horas por dia, cinco ou seis dias por semana, viram lesão. É aritmética.

O erro de chamar de cansaço

O problema real não é a dor. É como você trata a dor.

Cansaço passa com uma noite de sono. Lesão em formação não passa: ela recua e volta um pouco mais cedo a cada semana. A diferença entre os dois é o que separa uma correção de rotina de uma cirurgia.

Sinais que não são cansaço:

Se você marcou algum desses, o assunto não é alongamento. É procurar médico agora, enquanto tem conserto. Tendinite tratada cedo se resolve. Tendinite ignorada por dois anos vira limitação permanente.

O que dá pra mudar hoje

Nada aqui exige dinheiro do dono ou permissão de ninguém.

Altura da mesa

Este é o item número um e o mais ignorado. A mesa precisa estar numa altura em que você trabalhe sem se inclinar. A referência prática: com o cão em cima, a área que você está tosando deve ficar entre o seu umbigo e o seu peito.

Se a mesa é fixa e baixa, sua coluna paga por isso todo dia. Mesa regulável é a diferença entre trabalhar até os 55 e travar aos 40. Se a sua loja não tem, essa é uma conversa que vale ter com a gestão, e vale ter com argumento: afastamento custa mais caro que mesa.

Cão pequeno em mesa alta demais também é problema. Use um apoio ou caixa. Ajuste ao cão, não ao contrário.

Pausa de verdade

A recomendação para trabalho com movimento repetitivo é pausa curta a cada uma ou duas horas, com alongamento de costas, pescoço, ombros e braços, o que alivia a tensão muscular acumulada.

Dois minutos. Não é preguiça, não é enrolação. É manutenção, exatamente como você lubrifica a máquina pra ela não travar. Você não deixaria de lubrificar a máquina.

Varie o movimento

Se você tem três cães na fila e todos são tosa de tesoura, você vai fazer o mesmo gesto por seis horas. Se der pra intercalar com um banho, intercale. Variar a postura entre atendimentos permite que o grupo muscular descanse e reduz o risco de lesão por repetição.

Isso é negociável com a recepção na hora de montar a agenda. Vale pedir.

Deixe o braço descer

Toda vez que o secador te obrigar a manter o braço no alto, encontre um jeito de baixar. Gire o cão em vez de levantar o braço. Apoie o cotovelo quando possível. Troque de mão quando a tarefa permitir.

O ombro tolera esforço. Não tolera esforço em elevação por tempo prolongado.

Cuide da pegada

Tesoura mal dimensionada pra sua mão faz você compensar com força. Máquina pesada demais idem. Ferramenta cega exige mais pressão e mais repasse. Ferramenta boa e afiada não é vaidade profissional, é economia de punho.

Se já dói: o caminho formal

Tem uma parte que quase ninguém conta pro profissional de banho e tosa, e ela importa.

LER/DORT é doença ocupacional. Isso significa que ela tem um caminho reconhecido, com direitos associados, e não depende de boa vontade de ninguém.

O que fazer, na ordem:

Procure médico e diga onde você trabalha e o que você faz. Não diga só "dói o ombro". Diga: "trabalho oito horas por dia com o braço acima do ombro segurando secador, e há quatro meses dói". O contexto ocupacional muda o diagnóstico e muda o que fica registrado.

Guarde tudo. Receita, atestado, exame, encaminhamento. Papel guardado hoje é prova daqui a dois anos.

Se for afastamento, existe o CAT. A Comunicação de Acidente de Trabalho é emitida pela empresa, e doença ocupacional entra nela. O protocolo do Ministério da Saúde trata LER/DORT dentro da lógica de agravo relacionado ao trabalho, com notificação própria. Isso não é detalhe burocrático: afastamento por doença ocupacional tem tratamento diferente de afastamento comum, inclusive na estabilidade ao voltar.

Nada disso é sobre processar ninguém. É sobre não pagar sozinho, do próprio bolso e do próprio corpo, uma conta que foi gerada no trabalho.

O que não resolve

Duas coisas que o setor repete e que atrapalham.

Anti-inflamatório contínuo por conta própria. Tira a dor e mantém a causa. Você segue lesionando um tecido que agora não avisa mais. É a receita para transformar tendinite em ruptura.

Pulseira, tala e apoio comprados sem indicação. Alguns ajudam, outros pioram, e a diferença depende do que você tem. Sem diagnóstico, é aposta.

A conversa com o dono

Muita gente lê isso e pensa: "ótimo, mas quem manda na agenda não sou eu".

Verdade em parte. Só que a conversa é mais fácil do que parece, se você levar do jeito certo. O dono não perde nada com você saudável, ele perde muito com você afastado: fica sem tosador, atrasa a agenda, precisa contratar e treinar alguém.

Leve assim: "quero manter o ritmo e continuar aqui por muitos anos, e pra isso preciso de mesa regulável e dois minutos entre atendimentos". Nenhum gestor sensato recusa.

Se recusar, você aprendeu algo importante sobre onde está trabalhando.

O ponto

Ninguém entra nessa profissão pensando em como vai sair dela. Mas o corpo é a sua ferramenta de trabalho, e é a única que você não troca.

Tosador experiente vale muito no mercado, com especialistas chegando a patamares bem acima do piso. Só que essa experiência leva anos pra construir, e não adianta ter dez anos de conhecimento na cabeça e um ombro que não levanta mais o secador.

Ajuste a mesa esta semana. Faça a pausa. Se a dor já acorda você, procure médico antes do próximo cão.

Você quer sair dessa profissão quando decidir, não quando o corpo decidir por você.

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