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Profissional Pet

Secagem sem hipertermia: o protocolo que o cão não pede

O cão não morre no banho. Morre na secagem.

Isso não é frase de efeito. É a etapa em que o corpo do animal está molhado, o ambiente está quente, o ar forçado bate em cima dele e a via natural de perder calor fecha. E é a etapa que a maioria dos banhistas aprendeu a fazer no automático, olhando o relógio de longe.

Este texto é sobre o que acontece dentro do cão nesses minutos e sobre o protocolo que evita a notícia.

A secagem é a etapa mais estressante do processo

Não é impressão de quem trabalha. Foi medido.

Um estudo publicado na revista de educação continuada do CRMV-SP acompanhou 35 cães em dois pet shops e registrou frequência cardíaca, frequência respiratória e temperatura retal ao longo de todo o processo de banho e tosa. O resultado sobre a secagem é direto: 77,14% dos animais apresentaram tremores e mantiveram a cauda baixa ou entre as pernas, e 65,71% manifestaram lambedura constante do plano nasal. Nas alterações fisiológicas, 60,60% tiveram elevação da frequência respiratória.

Traduzindo: na secagem o cão está com medo, e o corpo dele está trabalhando mais para respirar. Essas duas coisas somadas ao calor são a receita da hipertermia.

O que acontece no corpo do cão

Cão não sua para se refrescar. Ele perde calor principalmente por evaporação, ofegando, e por condução, encostando em superfície mais fria.

Agora liste o que a secagem faz com esses dois mecanismos:

O resultado é um cão que está esquentando e não consegue baixar a temperatura. Isso tem nome: intermação.

Os números que você precisa conhecer

A temperatura corporal normal do cão gira em torno de 38 a 39°C. Um relato de caso publicado na revista de ciências agroveterinárias da UDESC descreve o quadro: acima de 41°C já se considera hipertermia grave, e entre 41,5°C e 42°C começa a perda de consciência. No caso relatado, um São Bernardo de 11 anos chegou ao atendimento com 43°C, ofegante e taquipneico, em ambiente fechado e mal ventilado como fator predisponente.

Três graus. É a distância entre o cão normal e o cão que perde a consciência. Não existe margem para "deixa mais dez minutinhos".

Quem não entra na caixa de secagem

Existe uma lista de animais para os quais o risco não compensa. O Manual de Banho e Tosa do CRMV-PR é explícito ao exigir que máquinas de secagem sejam seguras e de fácil higienização, que a temperatura seja controlada e que, durante a permanência na máquina, o animal seja monitorado de perto e com frequência. O manual também pede cuidado especial com animais com doenças cardiovasculares ou respiratórias e com animais suscetíveis ao estresse, e lembra que idosos e muito jovens são mais sensíveis a mudanças de temperatura.

Na prática do dia, isso vira uma lista curta:

Para esses, secagem manual, soprador em temperatura ambiente, toalha e paciência. Leva mais tempo. Custa menos que um óbito.

O protocolo, passo a passo

Antes de ligar

Olhe o cão. Raça, idade, condição corporal, respiração em repouso. Cheque a ficha: já teve episódio, tem doença registrada, o tutor avisou algo. Ler o animal antes de mexer nele é o mesmo trabalho que descrevemos em linguagem corporal do cão antes do banho, aplicado a outra etapa.

Durante

Os sinais de que você desliga agora

Qualquer um desses, sozinho, é motivo para tirar o cão dali. Não é para chamar alguém e esperar. É para tirar.

Se acontecer

O que a literatura veterinária orienta, e o que o relato de caso citado acima reforça:

  1. Retire o animal do ambiente quente imediatamente
  2. Molhe com água tépida, não gelada. Água muito fria causa vasoconstrição periférica e piora a dissipação do calor
  3. Concentre o resfriamento em axilas, virilha, abdômen e patas
  4. Ventile o ambiente
  5. Leve ao veterinário, mesmo que o cão pareça ter melhorado
  6. Não dê antitérmico. Medicação de febre não funciona em hipertermia, porque o mecanismo é outro

O item 5 é o que mais se ignora. Cão que aparentou melhorar pode evoluir horas depois. O CRMV-MS chegou a publicar um material explicando o que pode estar por trás da morte de um cão após banho em pet shop, justamente porque o quadro se desenrola rápido e o diagnóstico exige exame.

E existe registro de casos concretos no Brasil, incluindo morte de cão após ser colocado em caixa de secagem em pet shop. Não é hipótese de manual.

Registre e comunique

Se algo saiu do normal, anote na ficha: horário, o que você observou, o que fez. E avise o tutor no mesmo dia, antes que ele descubra em casa.

Isso parece burocracia e é proteção. A sua, principalmente. Profissional que registrou e comunicou tem uma versão documentada. Profissional que ficou quieto tem só a palavra dele contra a de um tutor com o cão doente no colo.

A parte que é caráter, não técnica

Em algum momento você vai olhar um shih tzu idoso, uma agenda com quatro cães atrasados e um dono pedindo para acelerar. E vai ter que dizer que esse cão não vai para a caixa.

Dizer isso é a diferença entre quem executa tarefa e quem tem ofício. É o mesmo tipo de decisão que separa o profissional que cresce do que trava, como escrevemos em de banhista a tosador. Ninguém constrói reputação em quinze anos de banho perfeito e destrói tudo com um único cão que não voltou para casa por causa de dez minutos de pressa.

Quem sabe o protocolo e sustenta o não vale mais no mercado. Isso aparece no salário, na indicação e no sono à noite.

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Secar cão é técnica. Saber quando não secar é profissão.

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